Expectativa é algo poderoso, mas a falta dela pode surpreender. Foi com esse pensamento que cheguei à cabine de imprensa de Cara-de-Barro, dirigido por James Watkins. Para começar, não sou um grande fã do universo DC. Conheço os principais heróis, mas boa parte da mitologia da editora ainda passa despercebida por mim.
Quando a Warner Bros. Brasil convidou a equipe do Porto de Lenha News para assistir ao filme, confesso que não fazia muita ideia do que esperar. Do universo do Batman, o Coringa é um dos poucos vilões que conheço melhor. Agora, a DC aposta em mais um antagonista do Homem-Morcego para construir uma história que mistura horror corporal, drama psicológico e uma assustadora transformação física. E que surpresa!
A trama acompanha Matt Hagen, um promissor astro de cinema em ascensão em Hollywood. Após sofrer um grave acidente que deixa seu rosto completamente desfigurado, o ator se submete a um procedimento médico experimental na tentativa desesperada de recuperar a aparência, salvar a carreira e retomar a vida que tinha antes. O que deveria representar uma segunda chance, porém, transforma-se em um pesadelo: as consequências da intervenção provocam mutações assustadoras e dão origem a habilidades monstruosas.
Como fã de filmes de terror, me vi completamente envolvido pela história, especialmente pelas sequências de body horror. É impossível não estabelecer uma comparação com A Substância, protagonizado por Demi Moore, principalmente pela maneira como o filme explora a deterioração do corpo humano e os limites que alguém é capaz de ultrapassar para recuperar aquilo que perdeu. A diferença está na abordagem: enquanto a produção estrelada por Moore mergulha na obsessão pela juventude e pelos padrões de beleza, Cara-de-Barro encontra no horror físico uma porta de entrada para discutir identidade, aparência e o desespero de um homem que vê sua própria existência desmoronar.
A mistura ganha ainda mais força quando lembramos de Coringa. Assim como o longa protagonizado por Joaquin Phoenix, a produção encontra espaço para explorar a mente de um personagem emocionalmente fragilizado, conduzido ao limite pelas circunstâncias e pelo sofrimento. É justamente nessa combinação que Cara-de-Barro encontra sua identidade: a deformação física de A Substância encontra o mergulho psicológico de Coringa, resultando em uma experiência que é tão perturbadora quanto envolvente.
E, quando o assunto é horror corporal, o filme não economiza. As cenas de mutação são um dos grandes destaques, com transformações que provocam desconforto e fazem o espectador acompanhar cada nova alteração com uma mistura de curiosidade e repulsa. Os efeitos visuais em CGI trabalham em conjunto com os efeitos práticos para dar materialidade às deformações, criando momentos que parecem saltar da tela. Durante a cabine de imprensa, era possível perceber a reação do público diante de determinadas sequências: teve gente se contorcendo na cadeira. Para quem gosta de terror que provoca reações físicas, é um prato cheio.
Outro acerto está na construção de Gotham City. A cidade mantém aquele ar decadente, sombrio e ameaçador, no qual cada esquina parece esconder algum perigo. A direção de arte e a ambientação ajudam a estabelecer uma atmosfera sufocante, fazendo com que os cenários não sejam apenas pano de fundo, mas parte importante da experiência. É interessante observar como os personagens transitam por esses espaços, entre ruas sombrias, ambientes degradados e locais que reforçam a sensação de que algo terrível está prestes a acontecer.
O roteiro, assinado por Mike Flanagan, também merece destaque. Conhecido por explorar personagens atormentados e atmosferas de tensão em produções como Doutor Sono, A Maldição da Residência Hill, A Queda da Casa de Usher e Carrie, a Estranha, o cineasta demonstra familiaridade com histórias que ultrapassam o susto fácil para investigar os abismos da mente humana. Em Cara-de-Barro, essa abordagem dá substância à trajetória de Matt Hagen, transformando sua mutação em algo que vai além da aparência monstruosa.
O filme não se limita a mostrar um homem cujo corpo sofre mudanças assustadoras. Ele acompanha o impacto dessas transformações sobre sua identidade, suas emoções e sua percepção da realidade. O horror físico passa a funcionar como uma extensão do sofrimento psicológico, criando uma conexão entre o que acontece com o corpo de Matt e o que se deteriora dentro dele.
Mas é na atuação de Tom Rhys Harries que boa parte dessa força encontra seu principal ponto de apoio. O ator abraça as diferentes nuances de Matt Hagen e entrega uma interpretação que transita entre a vulnerabilidade, a revolta, o desespero e a instabilidade. Nas cenas posteriores ao ataque que desfigura o personagem, é possível perceber a dor e o horror em seu olhar. Mesmo quando a transformação física assume o protagonismo, a atuação preserva a dimensão humana daquele homem.
Harries também consegue transmitir a confusão e o declínio psicológico de alguém que tenta desesperadamente reconhecer a si mesmo em um corpo que já não responde às suas expectativas. É esse componente emocional que impede a história de se tornar apenas uma sequência de mutações grotescas. Por trás da criatura, ainda existe um homem tentando recuperar o controle da própria vida, e essa contradição torna tudo ainda mais doloroso.
Não sei dizer até que ponto a produção é fiel aos quadrinhos, mas, para mim, a DC entregou uma experiência divertida, perturbadora e visualmente impactante. As cenas de luta também merecem atenção, especialmente uma sequência ambientada em uma boate, que se destaca pela energia e pela maneira como combina ação e violência.
A classificação indicativa para maiores de 18 anos, conforme informada para a produção, também permite uma abordagem mais intensa do horror, sem suavizar as consequências das mutações de Matt. O resultado são sequências incômodas, viscerais e capazes de provocar desconforto genuíno — exatamente o tipo de experiência que muitos fãs do gênero procuram.
No fim das contas, Cara-de-Barro foi uma grata surpresa. O filme combina elementos do terror corporal de A Substância com o drama psicológico de Coringa e encontra espaço para construir uma história própria dentro do universo da DC. Pode não ser necessário conhecer profundamente os quadrinhos para aproveitar a experiência, e isso conta pontos para quem, como eu, não acompanha de perto todas as histórias da editora.
Lembrando que Cara-de-Barro estreia nesta quinta-feira (22) nos cinemas! Confira a programação das salas mais próximas de você e aproveite a sessão!
Fonte: escrito por Diego Oliveira da Redação do site Porto de Lenha News
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