Manaus enfrenta um período de temperaturas excepcionalmente elevadas. Em setembro, mês que climatologicamente já é considerado o mais quente do ano na capital amazonense, a combinação entre a estação seca, um El Niño de forte intensidade, a urbanização e o aquecimento de longo prazo tem contribuído para ampliar o calor registrado na cidade.
De acordo com o meteorologista Leonardo Vergasta, do Laboratório de Climatologia da Universidade do Estado do Amazonas (LABCLIM/UEA), setembro coincide com o pico da estação seca. A menor presença de nuvens permite que a radiação solar atinja diretamente a superfície, enquanto a ausência de chuva reduz o resfriamento natural.
“Não é um fator só, é a soma deles no mesmo mês”, explica o meteorologista.
Os termômetros mostram que o calor registrado nos últimos dias está muito acima da média histórica para setembro. Segundo a climatologia do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a média das temperaturas máximas para o mês em Manaus é de 34,1 °C.
Na segunda-feira, 14 de setembro, as três estações meteorológicas da cidade registraram temperaturas superiores a esse valor:
39,4 °C na estação do LABCLIM/UEA, no Parque Dez — 5,3 °C acima da média;
39,1 °C na estação da Prefeitura de Manaus, no Mindu — 5 °C acima da média;
37,4 °C na estação do INMET — 3,3 °C acima da média.
Para Vergasta, os números caracterizam um episódio de calor extremo, e não apenas uma ocorrência isolada. Além disso, a diferença de quase 2 °C entre as estações demonstra outro fenômeno que interfere diretamente na temperatura sentida pelos moradores: a ilha de calor urbana.
Áreas com maior concentração de asfalto, telhados e construções e menor presença de árvores tendem a registrar temperaturas mais elevadas. Por isso, a temperatura indicada em um boletim meteorológico pode ser diferente daquela enfrentada pelo morador em seu próprio bairro.
Foto: Diego Oliveira
Umidade
O calor em Manaus também é agravado pela elevada umidade do ar. Tecnicamente, o chamado índice de calor combina a temperatura e a umidade relativa para estimar o quanto o corpo humano efetivamente sente o calor.
O mecanismo está relacionado à capacidade do organismo de se resfriar por meio da evaporação do suor. Quando a umidade está alta, o ar já contém grande quantidade de vapor d'água e tem menor capacidade de absorver a umidade liberada pelo corpo. Com isso, a evaporação diminui e o resfriamento corporal fica prejudicado.
Um exemplo apresentado pelo meteorologista mostra como a umidade altera o índice de calor: com a temperatura de 34 °C, o índice pode variar de 33 °C, com 30% de umidade, a 47 °C, quando a umidade chega a 70%.
Ou seja, o mesmo valor registrado no termômetro pode representar condições fisiológicas bastante diferentes dependendo da umidade relativa do ar.
Mudanças climáticas
Segundo Vergasta, o calor observado em Manaus não pode ser explicado apenas pelo El Niño. O fenômeno climático natural atua simultaneamente a uma tendência de aquecimento de longo prazo provocada pelas mudanças climáticas.
O acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera elevou a temperatura média global. De acordo com os dados citados pelo meteorologista, 2023 terminou cerca de 1,45 °C acima do nível pré-industrial, enquanto 2024 ficou em aproximadamente 1,55 °C, sendo o primeiro ano civil a ultrapassar a marca de 1,5 °C.
Na Amazônia, as alterações na temperatura dos oceanos também exercem influência. O aquecimento do Pacífico e do Atlântico tropical modifica a circulação atmosférica, interferindo na formação de nuvens, no transporte de umidade e na distribuição das chuvas na região.
Por isso, o meteorologista ressalta que não se trata de escolher entre El Niño e mudança climática. Os dois fenômenos podem atuar simultaneamente: enquanto o El Niño representa uma variabilidade natural do clima, o aquecimento global eleva a temperatura média sobre a qual essa variabilidade acontece.
Foto: Diego Oliveira
Sinais de aquecimento
Levantamentos científicos citados por Vergasta indicam que o aumento das temperaturas na Amazônia já pode ser observado em séries históricas.
Um estudo publicado em 2025 na revista Atmosphere, analisando a Amazônia Legal entre 1961 e 2020, identificou aumento das temperaturas máximas e mínimas na região. O levantamento também aponta crescimento na quantidade de dias e noites quentes e aumento na duração das ondas de calor.
Em Manaus, a média de setembro passou de 27,7 °C, na normal climatológica de 1961–1990, para 28,6 °C, na normal de 1991–2020.
Outro fator apontado é o desmatamento. A redução da cobertura florestal significa menor evapotranspiração e menor reciclagem de umidade, o que pode contribuir para o aquecimento e para alterações no regime de chuvas.
Novos recordes
A possibilidade de novas temperaturas elevadas em Manaus permanece alta, segundo a avaliação apresentada pelo meteorologista.
Além da atuação de um El Niño classificado como muito forte, o LABCLIM projeta anomalias de temperatura entre 2 °C e 3 °C acima do esperado principalmente para as regiões centro-norte e leste do Amazonas, área que inclui Manaus.
Considerando a média de 34,1 °C para as máximas de setembro, isso poderia colocar as temperaturas típicas dos próximos dias entre 36 °C e 37 °C, com possibilidade de registros ainda maiores.
O cenário também pode se prolongar. A previsão apresentada aponta permanência do El Niño até março de 2027, o que pode contribuir para o prolongamento da estação seca, atraso no início das chuvas e precipitações abaixo da média durante o período chuvoso.
Para o Amazonas, o cenário traz ainda possíveis consequências para os níveis dos rios. Com menos chuva durante o período em que normalmente ocorre a recuperação dos níveis, a expectativa apresentada é de uma cheia menos expressiva em 2027, seguida por uma nova estiagem em condições desfavoráveis.