Resident Evil. O que falar da franquia nos cinemas? A primeira tentativa aconteceu em 2002, pelas mãos de Paul W. S. Anderson, e acabou rendendo nada menos que seis filmes. Quase duas décadas depois, em 2021, veio uma nova tentativa de reboot com Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, dirigido por Johannes Roberts.
O problema é que nenhuma das duas empreitadas conseguiu entregar exatamente aquilo que boa parte dos fãs queria: uma adaptação que realmente respirasse os jogos criados por Shinji Mikami nos anos 1990.
E é justamente por isso que a equipe do Porto de Lenha News foi conferir a nova tentativa de levar Resident Evil para as telonas. E sim: temos opiniões.
Dessa vez, quem assume a direção é Zach Cregger, responsável por Noites Brutais e Hora do Mal. E, se você esperava ver Leon S. Kennedy, Jill Valentine, Chris Redfield e companhia correndo pelos corredores de Raccoon City, pode tirar o cavalinho da chuva.
Cregger decide seguir por outro caminho e entrega uma história completamente inédita. A mudança começa até pela época. Enquanto a mitologia dos jogos tem suas raízes nos anos 1990, o novo filme transporta o surto para os dias atuais, durante um inverno rigoroso. E aqui a neve deixa de ser apenas parte da paisagem e praticamente vira um personagem da história.
Mas vamos à história?
Bryan, interpretado por Austin Abrams, trabalha com transporte de órgãos. Ao chegar a um hospital para realizar uma entrega, ele acaba recebendo uma nova missão: levar uma carga até Raccoon City com urgência.
Só que o caminho, obviamente, não será tranquilo.
Durante a viagem, Bryan atropela uma mulher. A partir daí, começa a perceber que existe algo muito errado acontecendo. E quanto mais ele se aproxima de Raccoon City, mais descobre que o mundo está prestes a mudar, e que seu destino final é justamente o epicentro do problema.
Uma entrega que custou caro. Foto: Reprodução
Saem Leon e companhia. Entra um cidadão comum que, de uma hora para outra, se vê preso em uma situação completamente absurda, e essa escolha funciona. Ao deixar os personagens clássicos de lado, o filme também evita carregar o peso das expectativas que viriam com eles. Afinal, bastaria Leon aparecer para começarem as comparações: “Esse Leon não entregou nada”. Em vez disso, a produção aposta em uma história própria e consegue se sustentar sem depender dos rostos conhecidos da franquia para conquistar sua recepção.
A trama é relativamente simples, mas Cregger parece muito mais interessado em reproduzir a sensação de jogar Resident Evil do que simplesmente copiar personagens, criaturas ou acontecimentos dos games.
E é aí que o filme começa a ficar interessante.
É quase como jogar Resident Evil
Bryan entrando no hospital é provavelmente um dos melhores exemplos do que o diretor tenta fazer durante o filme. O ambiente parece ter saído diretamente de um videogame.
Os personagens espalhados pelos cenários têm aquele comportamento quase robótico de NPC. Alguns ficam praticamente parados, outros se movimentam minimamente e, mesmo quando Bryan passa diante deles, a reação é praticamente nenhuma.
Pode parecer estranho para um filme. Mas, para quem joga Resident Evil, é familiar. Essa emulação da linguagem dos games acompanha praticamente toda a produção.
Tem carro avançando por uma estrada tomada pela neve, exploração de ambientes, momentos em primeira pessoa, sequências de tiro e até aquele velho conhecido dos jogadores: o perseguidor que simplesmente se recusa a deixar o protagonista em paz.
E aqui Cregger acerta em cheio. Se existe uma cobrança por fidelidade visual e pela sensação de estar dentro de um jogo, poucas adaptações conseguiram chegar tão perto disso quanto este novo Resident Evil.
Trilha sonora e atmosfera trabalham juntas
Um dos pontos que merece destaque é a trilha sonora. Ela acompanha muito bem o ritmo da narrativa e ajuda a construir a sensação de perigo constante. Nas sequências mais tensas, o som contribui diretamente para a imersão e faz o espectador ficar esperando pelo próximo susto. E falando em susto...
Os jump scares aparecem com frequência e, para quem gosta desse recurso, o filme entrega bons momentos. O interessante é que nem sempre é possível prever de onde virá o próximo perigo.
Criaturas, CGI e um problema chamado zumbi
Visualmente, o filme também surpreende. A CGI funciona bem e o design das criaturas merece elogios. Os zumbis continuam sendo uma das principais marcas da franquia, mas aparecem menos do que este crítico gostaria.
Por outro lado, essa ausência acaba ajudando a criar tensão. Como os monstros não estão necessariamente aparecendo a cada cinco minutos, o espectador nunca sabe exatamente o que Bryan vai encontrar na próxima porta, no próximo corredor ou no próximo ambiente.
E Resident Evil sempre funcionou muito bem quando o medo vinha justamente daquilo que você não conseguia enxergar.
Carisma
Outro destaque é Austin Abrams na pele de Bryan. O ator, que já havia trabalhado com Cregger em A Hora do Mal, encontra aqui um protagonista que passa por praticamente todas as nuances de alguém jogado, sem aviso prévio, em uma situação de extremo risco. Bryan grita, questiona, se desespera e, em vários momentos, é completamente desastrado, só que é justamente essa vulnerabilidade que aproxima o personagem do público. Abrams consegue equilibrar medo, tensão e bom humor sem transformar Bryan em um herói tradicional, entregando o carisma necessário para carregar boa parte do filme praticamente sozinho.
Se tem uma coisa que Resident Evil sabe fazer é criar ambiente
Cregger também acerta na ambientação. O filme passeia por diferentes cenários que remetem diretamente à estrutura dos jogos: começa no hospital, passa por uma estrada coberta de neve, chega a uma casa rural, apresenta Raccoon City, desce aos esgotos e, claro, não poderia faltar aquele lugar que todo fã já espera encontrar: o laboratório.
É quase como percorrer uma campanha de Resident Evil em sequência. E isso é um dos grandes méritos da produção.
Referências dos jogos no filme de Zach Cregger. Foto: Divulgação
O problema: Zach Cregger não sabe largar o humor
Mas nem tudo são flores, ou zumbis. O principal problema do filme está justamente em algo que já virou uma espécie de assinatura de Zach Cregger: o humor.
O diretor utiliza o terror com humor em seus trabalhos anteriores, e a fórmula funcionou muito bem em Noites Brutais e Hora do Mal. Aqui, porém, algumas piadas parecem surgir em momentos completamente desnecessários.
Resident Evil nunca foi exatamente uma franquia conhecida por ser 100% dramática ou solene. Os próprios jogos possuem momentos absurdos, diálogos questionáveis e situações que beiram o exagero. Mas existe uma diferença entre o humor funcionar organicamente dentro daquele universo e interromper uma cena de tensão para arrancar uma risada.
Em alguns momentos, o filme poderia simplesmente deixar o terror acontecer. Menos uma piada aqui, outra ali, e talvez algumas cenas funcionassem ainda melhor.
Humor pode atrapalhar algumas pessoas. Foto: Reprodução
1h35: curto, direto e sem enrolação
Com aproximadamente 1 hora e 35 minutos, o novo Resident Evil é um filme bastante direto. Não existe muito espaço para enrolação. A história anda rápido, os acontecimentos se sucedem e Bryan praticamente está o tempo inteiro tentando entender em que inferno se meteu.
Para alguns espectadores, a duração pode parecer curta demais. Principalmente porque existe um universo gigantesco por trás da franquia. Porém, considerando a proposta, o tempo funciona a favor da produção.
O filme não tenta explicar tudo. Ele coloca o protagonista no caos e deixa o público descobrir aquele mundo junto com ele.
Afinal de contas: é Resident Evil?
Sim e não.
Nos primeiros 30 minutos, somos praticamente bombardeados por referências aos jogos. Na sala de cinema, dava para perceber os fãs reconhecendo objetos, ambientes e elementos que remetem diretamente à franquia. A cada nova cena, alguém parecia identificar alguma coisa conhecida.
O problema é que, em determinado momento, fica evidente que as referências são justamente isso: referências. Os personagens clássicos não estão ali. Alguns dos monstros mais icônicos também não. E, para quem esperava uma adaptação direta de algum dos jogos, isso pode gerar uma certa frustração. Mas existe uma escolha que ajuda a entender o caminho seguido por Cregger.
Resident Evil 7 é a grande referência invisível
O novo filme parece conversar muito mais com Resident Evil 7 do que com os primeiros jogos da franquia.
No game, Ethan Winters é um civil comum, sem ligação direta com Leon, Chris ou Jill, que acaba entrando em uma verdadeira descida ao inferno enquanto tenta descobrir o que aconteceu com sua esposa, Mia.
O jogo também apresentou novos personagens, novos monstros e uma mudança significativa na experiência: saiu a câmera tradicional em terceira pessoa e entrou a perspectiva em primeira pessoa.
A proposta de Cregger parece seguir essa mesma lógica. Em vez de tentar recriar a história que os fãs já conhecem, ele cria um novo personagem e coloca esse sujeito comum diante de uma situação extraordinária. É Resident Evil sem necessariamente ser aquele Resident Evil.
Queridinho dos críticos
E existe uma curiosidade interessante envolvendo a recepção do filme. Apesar da resistência de parte dos fãs, a nova produção vem conquistando avaliações bastante positivas entre os críticos. No Rotten Tomatoes, o longa aparece com 96% de aprovação.
Para efeito de comparação, entre os filmes dirigidos por Paul W. S. Anderson, o melhor resultado no site é de Resident Evil 6: O Capítulo Final, com 39%. Já Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, de Johannes Roberts, aparece com 30%. Ou seja: pelo menos entre os críticos, Cregger conseguiu fazer algo que as adaptações anteriores não alcançaram na mesma proporção.
24 anos da franquia Resident Evil nos cinemas. Foto: Reprodução
Veredito
O novo Resident Evil entende uma coisa que as adaptações anteriores pareciam ter dificuldade de compreender: não é necessário copiar a história dos jogos para reproduzir a sensação de jogar Resident Evil.
Zach Cregger cria uma história nova, com um protagonista novo e uma mitologia própria, mas recheia a experiência com elementos que fazem o jogador reconhecer aquele universo.
A ambientação é excelente, a trilha sonora ajuda na imersão, as criaturas funcionam, os jump scares cumprem seu papel e a linguagem visual dos games é provavelmente o maior acerto da produção.
O excesso de humor, porém, tira um pouco do peso de algumas cenas e pode incomodar quem esperava um terror mais sério.
E talvez essa seja justamente a maior questão do filme: ele parece mais interessado em fazer você sentir que está jogando Resident Evil do que em contar uma história que você já conhece.
Para quem queria Leon, Jill, Chris, Wesker e os monstros clássicos, pode faltar alguma coisa. Para quem aceita entrar em Raccoon City sem saber exatamente o que vai encontrar, existe uma boa chance de a experiência funcionar.
No fim das contas, talvez a pergunta mais justa não seja “esse é o Resident Evil que eu queria?”, mas sim: “Esse filme conseguiu me fazer sentir dentro de um jogo de Resident Evil?”
E nisso, Cregger definitivamente sabe jogar.
Fonte: escrito por Diego Oliveira da Redação do site Porto de Lenha News
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