O que deveria ser um direito básico, viver com dignidade, tem se tornado um pesadelo diário para moradores de comunidades próximas ao lixão a céu aberto de Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus. Expostos ao mau cheiro, à contaminação do solo e ao chorume que já escorre pelas ruas, moradores afirmam não suportar mais o descaso do poder público municipal diante de um problema que se arrasta há décadas.
Cansados de promessas e da ausência de soluções concretas, moradores do município estiveram na Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) para cobrar providências urgentes e o encerramento imediato do lixão. Segundo eles, a gestão do prefeito Augusto Ferraz tem ignorado sistematicamente o sofrimento das comunidades afetadas.
A comunidade São Francisco, localizada no quilômetro 4, está a cerca de três quilômetros do lixão, mas, mesmo assim, já sente os impactos diretos da área de descarte irregular. Para o líder comunitário, a revolta tem um único nome: dignidade.
“Em primeiro lugar, nós buscamos dignidade para o nosso município. Procuramos que a Justiça intervenha junto ao poder público, porque estamos abandonados. É muito dinheiro entrando, muita mídia, mas um descaso total. Principalmente com a questão do lixo, que já está afetando famílias inteiras, desvalorizando propriedades e colocando em risco nossos lençóis freáticos”, denuncia.
Segundo os moradores, todo o lixo do município é despejado na região do quilômetro 6, sem qualquer estrutura adequada, enquanto a legislação ambiental é ignorada. A Lei nº 12.305, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos e determinou o fim dos lixões até 2024, estaria sendo “rasgada na cara da população”, como relatam os comunitários.
“Todo mês entram cerca de R$ 500 mil para a coleta de lixo, mas a cidade não reflete isso. Onde está esse dinheiro? Porque o lixão continua a céu aberto e a cidade continua suja”, questiona o líder comunitário.
Além do impacto ambiental, a situação agrava problemas de saúde pública. Moradores relatam a ausência de medicamentos nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), falta de atendimento adequado e aumento de casos de doenças, especialmente entre crianças, que brincam em meio ao lixo espalhado por cães, resultado de uma coleta precária.
“A coleta passa e deixa cair sacos de lixo. Os cachorros espalham tudo. As crianças brincam no meio disso. Onde o poder público não entra, a dificuldade é imensa”, relata outro morador.
Para Benedito Leite, líder comunitário, o lixão representa mais de 30 anos de negligência. “Tudo de ruim vai para nossa região. Não há investimento em saúde, a UBS está abandonada, as pessoas adoecem com frequência, têm diarreia, precisam de exames e não encontram atendimento adequado. E o lixão só piora tudo isso”, afirma.
Ele também critica a falta de transparência da prefeitura. “O prefeito fala que tem R$ 500 mil, mas nunca apresentou um projeto concreto, palpável. Nada que a gente possa dizer: agora vai sair. E ainda há o abandono das pessoas que trabalham no lixão, que também precisam de dignidade.”
Durante o atendimento na Defensoria Pública, uma moradora resumiu o sentimento coletivo: “O asfalto é uma vergonha, o resto está abandonado. Desde 2012 o lixão só cresce. Hoje, o chorume está no meio da rua, perto do asfalto. É insustentável”.
O defensor público Carlos Almeida confirmou a gravidade da situação. Segundo ele, todas as denúncias foram registradas e a Defensoria já conhece a realidade das comunidades afetadas. “Nós já realizamos uma audiência pública em 2023 para tratar desse lixão. Pelo que vemos agora, nada foi feito e a situação só se agravou. A Defensoria tem o dever de agir e vai adotar medidas coletivas para exigir o encerramento do lixão”, afirmou.
Enquanto ações judiciais são preparadas, o sentimento entre os moradores é de incerteza. Para as famílias de Iranduba, resta esperar, esperar por uma resposta que pode ou não vir. Até lá, seguem convivendo com uma realidade desumana, afogados no chorume do abandono, enquanto a prefeitura observa, em silêncio, a própria população definhar na lama.
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