'Amazônia é um paradoxo', afirma Belisário Arce da Associação PanAmazônia

Fundada em 2 de junho de 2010, a Associação PanAmazônia chega aos 15 anos consolidada como uma das principais iniciativas de integração e cooperação na região. Com sede em Manaus e atuação em rede, a entidade promove conexões entre empresários, organizações da sociedade civil e representantes públicos de toda a Amazônia Legal brasileira, além de países como Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, Venezuela e Guianas.


Nessa entrevista, Belisário Arce, fundador e diretor-executivo da PanAmazônia, detalhou quais têm sido as conquistas da instituição nesses 15 anos.


Nesses 15 anos de existência, a PanAmazônia conseguiu realizar seus objetivos?

Belisário Arce: Sim, conseguimos avançar de maneira significativa. A PanAmazônia nasceu com o propósito de unir forças em torno de uma visão: a de que a Amazônia precisa ser protagonista do próprio destino. Nesses 15 anos, conseguimos articular centenas de lideranças empresariais, culturais e institucionais em prol do desenvolvimento econômico da região. Criamos redes, promovemos missões internacionais, atraímos investimentos e, sobretudo, ajudamos a desconstruir a visão assistencialista da Amazônia, propondo um modelo baseado na produtividade, na inovação e na liberdade econômica.


Atualmente, a PanAmazônia conecta quantas empresas e quantas instituições na Amazônia? Quais os resultados dessa conexão?


BA: Hoje, a PanAmazônia conecta quase 200 empresas privadas, de diferentes setores, além de instituições públicas e entidades civis. O resultado é uma verdadeira inteligência coletiva amazônica, uma rede viva de colaboração que viabiliza projetos, fomenta parcerias internacionais e fortalece a presença do empresariado amazônida em grandes debates cruciais para o desenvolvimento da região. Não aceitamos sermos meros espectadores das decisões que nos afetam. Lutamos pelo protagonismo.


Quais principais ações da PanAmazônia você destacaria?


BA: Citaria três frentes: nossas missões internacionais, como as realizadas na Guiana; o fortalecimento do ambiente de negócios na região, por meio de eventos, seminários e articulação empresarial e governamental; e ações de valorização da arte e da cultura amazônica como ferramenta de transformação econômica e social, com destaque para nossa atuação na curadoria e promoção de artistas da região.


Fale sobre a exposição ‘Arte da Amazônia para o mundo’, que terá início no dia 10, no Manauara Shopping.


BA: A exposição ‘Arte da Amazônia para o mundo’ é, antes de tudo, um manifesto. Ela reúne artistas contemporâneos da Amazônia com o objetivo de apresentar ao público nacional e internacional uma visão sofisticada, sensível e profunda da nossa região. A arte aqui não é exótica nem folclórica, é potência estética, é crítica, é modernidade. Acreditamos que a arte é um vetor legítimo de desenvolvimento, capaz de gerar oportunidades, projetar talentos e afirmar a identidade amazônica no cenário global.


Como está a situação da Amazônia hoje? Continua uma região ambicionada pelo mundo, mas desprezada pelos brasileiros?


BA: Infelizmente, sim. A Amazônia continua sendo romantizada por estrangeiros e ignorada pelo próprio Brasil. Somos tratados como uma reserva intocável, um santuário estático quando, na verdade, a Amazônia é feita por pessoas que querem trabalhar, empreender e prosperar. É revoltante ver tanta riqueza natural e humana condenada à pobreza por um modelo de tutela ambiental e econômica. Somos ambicionados pelo mundo, mas desprezados pelas elites políticas e intelectuais do nosso próprio país.


Que parcerias a PanAmazônia tem com os países que integram a Amazônia estrangeira?

BA: Temos uma atuação intensa na chamada PanAmazônia internacional. Fomentamos o estreitamento de laços empresariais entre os Estados da Amazônia brasileira e também com os países vizinhos. Recentemente, por exemplo, promovemos duas missões empresariais à Guiana com dezenas de empresários do Amazonas e Roraima. De certo modo, estamos construindo uma espécie de ‘diplomacia’ pan-amazônica, uma que não passe por Brasília nem por outras capitais nacionais, mas sim por Manaus, Letícia, Iquitos e Georgetown, entre outras.


Defina a Amazônia: está em desenvolvimento? Parou no tempo? O amazônida é um povo pobre sobre riquezas?


BA: A Amazônia é um paradoxo: é rica, mas empobrecida; é promissora, mas estagnada; é central no discurso global, mas periférica na ação concreta. O povo amazônida vive sobre um tesouro energético, mineral, cultural e ambiental, mas não tem acesso à chave desse cofre. Isso é um erro histórico. E mais: é uma injustiça. Precisamos urgentemente de uma virada de chave, sair da retórica ambientalista paralisante e partir para um modelo de desenvolvimento ousado, com liberdade econômica, investimentos privados e respeito às liberdades individuais. Sem isso, estaremos apenas pintando a gaiola de verde.

Fonte: com informações do Jornal do Commercio